17/04/2017

13 motivos para falarmos sobre suicídio

Camila Appel

Um tema importante que perambulou durante a semana passada foi a polêmica em torno da série “13 Reasons Why” da Netflix, baseado em um romance best seller, traduzido no Brasil como “Os 13 porquês” (ed. Atica), de Jay Asher. A história ficcional envolve uma adolescente, Hannah, que se mata e deixa 13 fitas gravadas para 13 pessoas que ela acredita serem responsáveis por sua ação.

As críticas acusam a série de romancear o suicídio e abrir margem para o efeito Werther: o nome dado ao efeito do suicídio por imitação, inspirado no livro de Goethe “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774). Esse livro gerou uma onda de suicídios na Europa após sua publicação, com jovens imitando o protagonista Werther, que se mata, desiludido por um amor não correspondido.

Contrariando a maior parte das críticas, listei 13 motivos para assistirmos a série, falarmos sobre ela e, enfim, falarmos sobre suicídio.

- O suicídio é uma questão de saúde pública. Ele tem crescido no Brasil e no mundo e não é reforçando o estigma de “tabu” que vamos melhorar esse problema;

- Ficção pode ser uma ferramenta para debater assuntos pertinentes da sociedade, uma forma sutil de abordar tabus com criatividade.

- “Estão romanceando o suicídio”, dizem as críticas. Segundo esse raciocínio, teríamos que eliminar os filmes com psicopatas como protagonistas, as séries baseadas em assassinatos, todos os assédios sexuais, os estupros, as drogas, e por fim, não teríamos mais ficção. O fato de Hannah responsabilizar pessoas por seu suicídio é um opção ficcional que funciona muito bem como arco dramático. Não há ligação com a realidade, já que não é possível apontarmos culpados para um suicídio. Essa questão poderia ser discutida pela mídia, como vem acontecendo após o lançamento da série.

- “Mostrar a cena em que Hannah se mata é um absurdo”. Essa cena é baseada no livro, que a descreve em detalhes. Imagine se falassem para Shakespeare que é proibido descrever como Romeo e Julieta se matam. Ou que na adaptação da história para o cinema, proibissem a cena dramática do veneno, da faca empunhada contra o peito. Entraria um letreiro dizendo: “agora, o casal morre”.

- O Efeito Werther pode não ser uma justificativa válida. E aí faltam pesquisas atuais para melhor embasamento de uma opinião… de qualquer opinião, não só a minha. Meu ponto é que não adianta usar esse efeito como justificativa sem realmente desenvolvermos uma pesquisa atual. A mídia tem evitado tocar no tema do suicídio e mesmo assim ele aumenta. Proibir a fala sobre determinado assunto pode justamente causar sua maior incidência, ao invés de diminuir. Há um mistério em torno do proibido, uma áurea que (aí sim) vai romancear o tema. O efeito Werther é inspirado em um livro publicado em 1774. As ferramentas de debate público mudaram um tanto considerável desde então.

- A série indica a dificuldade de comunicação entre jovens e adultos, um dos motivos apontados para o suicídio entre adolescentes. Hannah não conseguia se abrir com seus pais, que sofriam com essa situação. Me parece um ponto fundamental. Pais e adolescentes podem discutir, juntos, os pontos reais e os ficcionais da série. Aquilo que o adolescente se identifica e o que, para ele, não faz sentido.

- Segundo reportagens recentes, o número de atendimentos do CVV aumentou de 50 para 300 por dia após o lançamento da série no Brasil. Um ponto muito positivo.

- É precipitado dizer que a série vai inspirar potenciais suicidas. O que estimula um potencial suicida é o fato de não ter com quem falar sobre o assunto, de se sentir sem saída e incompreendido, inútil para a sociedade, um fardo para os familiares. A proibição do assunto só aumenta a culpa.

- Outra crítica muito comum: “o suicídio deve ser mostrado como algo que se pode combater”, ou “deveria haver um depoimento de um psiquiatra após cada episódio”. Essa não é uma série documental. Torço para que sirva de inspiração para um documentário nesse sentido. Afinal, esse é um desdobramento válido para a ficção, inspirar novas formas artísticas e desdobramentos de seus temas. Mesmo assim, ela não demonstra leviandade com o tema (veja o item abaixo).

- Não acho que seja possível dizer que se trata de uma série irresponsável. No final dela, há um documentário de 30 minutos com atores, produtores e psiquiatras em uma ação de prevenção do suicídio. Falam sobre riscos e perigos e oferecem telefones de suporte e ferramentas de ajuda.

- A depressão crônica é a maior causa ligada ao suicídio. Há sinais evidentes tanto da doença quanto de planos de morte. São mudanças bruscas no comportamento, falar em não ver saída para sua situação, não sentir que ele ou ela bastam para o mundo (é um sentimento predominante de “eu não sou o suficiente”) e uma imensa falta de compreensão, de escuta. Trazer o assunto à tona, no mínimo, incentiva uma pessoa a olhar ao redor e buscar sinais, se preocupar com os amigos e familiares que demonstram depressão. Também alerta para a necessidade de sairmos do nosso próprio mundo e vermos que podem existir consequências para nossas ações.

- O enredo da série é ótimo. Está aí um bom motivo para assisti-la. Pais e filhos sentados juntos, opinando, concordando ou discordando, mas se comunicando.

- Segundo o filósofo Albert Camus no ensaio “O Mito de Sísifo”, o suicídio não é uma saída, mas é uma reflexão válida e até necessária. “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”, ele diz. Esse julgamento partiria de uma pergunta complexa: qual é o sentido da vida? O que me atrai nesse pensamento de Camus é justamente desmitificar o suicídio ao colocá-lo como uma reflexão normal. Nesse sentido, as pessoas não precisam se sentir mal por refletirem a respeito. Colocarmos esse pensamento como proibido, feio e sujo, só vai aumentar a culpa e fortalecer as ideias para o ato. Pode estar na hora de acreditarmos mais nos adolescentes, acreditarmos na sua capacidade de empoderamento e de dizer não. Deixar de trata-los como seres incapazes de discernimento. Só assim poderemos nos comunicar melhor e evitar ações irreparáveis.

Artigo escrito por Camila Appel e publicado no blog Morte Sem Tabu, da Folha de S. Paulo, no dia 16 de abril de 2017. A autora é formada em administração de Empresas pela EAESP-FGV e mestre em Antropologia e Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE).

*As opiniões emitidas nos artigos desta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do CRM-PR.

Envie para seus amigos

Verifique os campos abaixo.

* campos obrigatórios

Comunicar Erro

Verifique os campos abaixo.

* campos obrigatórios