03/08/2016

Médico deve fazer pelo outro o que deseja para si mesmo

Cláudia Collucci

O caso do médico que publicou foto no Facebook debochando de paciente que fala "peleumonia" e "raôxis" viralizou nos últimos dias nas redes sociais e culminou no afastamento dele e de duas colegas que também fizeram comentários depreciativos nas redes sociais.

O médico postou vídeo se desculpando e depois foi até a casa do paciente, que deu uma grande lição de vida. "Ele é uma pessoa boa, que teve um momento errado. Ele é novo e vai aprender com o tempo. Não foi nada que a gente não possa perdoar", disse o mecânico José Mauro Lima ao portal "G1".

A história poderia ter acabado aí, mas existe uma sindicância em curso no Cremesp (Conselho Regional de Medicina) para apurar os fatos, o que deve render ainda uma certa dor de cabeça ao médico. Fora o grande prejuízo à sua imagem.

Por antagonismo e não pela semelhança, o caso me fez lembrar de um outro médico que conheci anos atrás. É o Jim Withers, que criou um movimento global batizado de Street Medicine Institute (Instituto Medicina de Rua).

Há mais de 20 anos ele sai na madrugada para tratar de pessoas que vivem nas ruas de Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA). Diz que aprendeu mais nas ruas do que nos bancos da faculdade.

Withers não está mais sozinho. Hoje o movimento reúne médicos voluntários em diversos locais da América, África, Ásia e Europa. Ele saem com vans equipadas com serviços móveis, como clínicas médicas ao ar livre. O instituto realiza reuniões internacionais anuais que preparam médicos e estudantes de medicina a atuarem nas ruas.

No Brasil, há um programa federal semelhante chamado Consultório na Rua. Criado em 2011, visa a ampliar o acesso da população em situação de rua ao SUS. Em todo o Brasil, há perto de 150 equipes de consultórios na rua. Ainda é pouco, mas é uma iniciativa que merece aplausos.

Em reportagem feita pela EBC no ano passado, a médica Valeska Antunes disse que a invisibilidade e o preconceito são os maiores obstáculos dessas pessoas para acessarem serviços e direitos. "Não dá para prejulgar, determinar quem merece ou não investimento e esforços."

O site do Street Medicine Institute define a missão: "A essência da medicina de rua tem como regra de ouro fazer aos outros o que gostaríamos que os outros fizessem por nós. Isso obriga-nos a acreditar que os outros são dignos o suficiente para merecer nossa compaixão".

Essa é a regra de ouro que deveria prevalecer sempre, em todas as relações, e, em especial, naquelas que são tão assimétricas como na relação entre médicos e pacientes. Mas sempre há tempo para quem não aprendeu isso em casa, na escola ou na vida. Mesmo que seja pelo vexame público.

Cláudia Colluci é repórter e colunista do jornal Folha de S. Paulo.

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 02 de agosto de 2016

*As opiniões emitidas nos artigos desta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do CRM-PR.

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