10/01/2018

Na Bahia, formar um médico custa R$ 720 mil

Cálculo é feito por estudantes e pela Associação Baiana de Medicina e pouco difere da realidade de outros estados

Quanto custa um sonho? Bom, há quem defenda que sonhos não têm preço. Mas, se você quiser ser médico na Bahia, pode precisar desembolsar nada menos R$ 720 mil. É o cálculo que fazem estudantes e a própria Associação Baiana de Medicina (ABM) a partir dos valores das mensalidades praticados por algumas instituições de ensino do estado. Uma das universidades chega a cobrar mais de R$ 10 mil por mês. Em seis anos de curso, com 12 meses por ano.

A Unime, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, tem o curso de medicina mais caro da Bahia. Oitavo semestre, o estudante Guilherme Pimentel, 26 anos, veio de longe para realizar seu sonho. Ao chegar, vindo do Tocantins, constatou: "Cursos de medicina se transformaram em um grande comércio. São eles que mantêm vivas as faculdades particulares, já que outros cursos vão de mal a pior", acredita Guilherme, que até o último semestre desembolsava integralmente R$ 8,4 mil por mês.

Agora, em 2017, Guilherme terá que pagar ainda mais. "Vai ter um aumento. Passarei a pagar perto de R$ 9,4 mil. Mas vai ter colega pagando acima de R$ 10 mil", calcula. Quer dizer, colegas, não. A família.

"Acaba envolvendo toda a família. Conheço colegas que os pais já se desfizeram de apartamentos, carros e outros bens para manter os filhos estudando. É muito perverso" , define Guilherme, cujo os pais são funcionários públicos.

Além do gasto com a mensalidade, o procurador e a defensora pública do Tocantins precisam pagar aluguel e alimentação do filho em Salvador. "Calculo que vou gastar meio milhão de reais até o final do curso só com a mensalidade. Imagine os que se matricularam agora".

 

Emoção

As histórias de vida de alguns estudantes chegam a emocionar. Especialmente os que têm origem humilde. Nesses casos, para ser o primeiro integrante da família a se tornar médico, muitas vezes precisam envolver tios, tias, avôs e avós para ajudar a pagar o curso. No mínimo, a decisão de cursar Medicina torna a vida dos membros do núcleo familiar bastante restrita.

Morador do bairro da Liberdade, um aluno do 12º semestre da Unifacs, que prefere não se identificar, diz que pensou várias vezes em desistir. Prestes a se formar, agora no último semestre do curso, conta que o pai precisou utilizar as economias de uma vida.

"Passei na Unifacs, e agora?  Mensalidade de R$ 5 mil para um morador da Liberdade era algo surreal. Achei que seria impossível e quis desistir de cursar", conta o estudante.

"Minha mãe não tem renda e minha irmã também faz faculdade. No fim das contas, eu não teria condições de pagar a tal mensalidade, caso meu pai não tivesse feito um planejamento financeiro", continua.

"Não passamos por necessidades, mas deixamos de fazer muitas coisas importantes como lazer, viagens, mudança de bairro, entre outras", lamentou o estudante, que calculou cada centavo que gastou. No primeiro ano, gastou R$ 31.476. No último, R$ 45.516. No final, em seis anos, desembolsou R$ 392.304. O valor de um apartamento de dois quartos em um bairro nobre de Salvador.

Há as formas de financiamento, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programa criado pelo Ministério da Educação (MEC), além de planos das próprias universidades.

Mas, mesmo para esses estudantes, a vida não é fácil. Amália Queiroz, 32, também da Unifacs, se forma em 2018. Com Fies de 100%, pagaria R$ 7.586,90. Mais dia menos dia, essa conta vai chegar. "Pra quem entrou depois tá mais caro, tem gente que já paga mais de R$ 8 mil. Devo um carro por semestre ao Fies", compara.

 

Grande negócio

Os que já estão pagando a conta fazem isso ao mesmo tempo em que vão começar a pagar cursos de residência médica. Por isso, antes disso, começam a trabalhar como clínicos. Formado em julho do ano passado pela Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), Deivid Santos Bomfim, 31, terminou o curso pagando quase R$ 5 mil por mês. No momento, é médico de um posto de saúde de Candeias, na RMS, e se prepara para fazer residência.

Deivid Santos Bonfim pagava R$ 5 mil de mensalidade quando se formou, em julho (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

"A formação de médicos acabou se transformando em um grande negócio. Enquanto os empresários querem ganhar dinheiro, os estudantes entram acreditando que vão ficar ricos e que viverão as mil maravilhas na profissão. A realidade é bem diferente", analisa Deivid.

Os que acabaram de sair da faculdade lembram que, além dos gastos com a mensalidade, há outros tantos. Os livros, por exemplo. E a alimentação, especialmente para os estudantes que estão no internato, nos dois últimos anos do curso, a maior parte do tempo dentro de hospitais.

"Por mais que muitas vezes você não precise comprar o livro, quando precisa é um gasto considerável. Tem também a alimentação que você gasta muito. O curso é integral, então você come na rua. Alguns hospitais dão almoço para o interno, outros não. E a gasolina? Isso sem falar quando você precisa sanar a deficiência da unidade. Tem hospital aí faltando papel para imprimir. Você tem que levar o seu próprio papel. Já aconteceu isso comigo em um hospital público", afirma Marcelo Galvão, formado no final do ano passado pela FTC.

Por outro lado, os estudantes elogiam as estruturas das instituições. "A FTC tem uma boa estrutura. Uma excelente biblioteca de Medicina, separada do restante da faculdade. Claro, sempre faltam algumas coisas. Durante o meu curso faltaram algumas coisas como em todos os cursos", afirma Marcelo, que pretende se especializar em transplante de fígado e colou grau em 7 de dezembro.

Silêncio

Nenhuma das três instituições de ensino particulares procuradas pelo CORREIO (Unime, Unifacs e FTC) quis abordar diretamente o tema "mensalidade" e nem deu detalhes sobre em que são investidos os valores nos cursos. "O curso de Medicina da Unime tem priorizado um ambiente de questionamento científico", restringiu-se a informar, através da assessoria, o coordenador do curso de Medicina do campus de Lauro de Freitas, Paulo Benigino.

A Unifacs também não respondeu à questão relacionada com o valor da mensalidade. Destacou que "conta com o que há de mais moderno em estrutura de laboratórios de ensino, o que facilita o processo de capacitação dos estudantes". A assessoria da FTC informou que a diretoria da instituição tinha compromissos acadêmicos inadiáveis e não poderia falar com o CORREIO.

Leia também: MEC diz que não interfere no valor de mensalidades das faculdades de Medicina

No caso da Escola Bahiana de Saúde Pública (EBMSP), a situação é oposta. A Bahiana se destaca não pelo valor exorbitante do curso. Na verdade, de acordo com dados do site Escolas Médicas do Brasil, com base nos valores de 2017, a Bahiana é a 3ª faculdade de Medicina mais barata do Brasil.

Além disso, a Bahiana, que tem como mantenedora a Fundação Bahiana para Desenvolvimento das Ciências (FBDC) e é uma instituição sem fins econômicos, está inscrita no Fies e no Fundacred

 

Investimentos

Apesar do silêncio das instituições, os estudantes dão pistas dos investimentos feitos pelas faculdades que ajudam a justificar as mensalidades altas. Para além dos investimentos em estrutura, aliás quase sempre elogiadas pelos alunos, as faculdades têm outros custos. Marcelo Galvão afirma que o chamado internato - os dois anos em que o estudante é mantido pela faculdade em atividades hospitalares dentro de instituições de saúde - costuma custar caro para a instituição.

"As faculdades têm que pagar aos hospitais por esse período. Alguns não podem receber dinheiro e recebem material. Outros recebem dinheiro mesmo. Além disso, a faculdade ainda paga um seguro para o estudante ficar lá no hospital" , cita.

O médico também lembra que as faculdades precisam manter professores contratados acompanhando os alunos dentro dos hospitais. "Alguns médicos preceptores são ligados às faculdades. Isso é custo".

Apesar disso, Marcelo admite que há instituições de ensino cobrando valores abusivos. "Eles precisam encontrar um ponto ideal. Como são empresas, claro, precisam de sua margem de lucro. Mas algumas estão cobrando valores absurdos", diz o agora médico, que foi aluno da primeira turma de médicos.

Turma de formandos da FTC, com a qual Marcelo Galvão colou grau no mês passado (Foto: Divulgação)

 

Formação

Incluindo as duas universidades públicas (Ufba e Uneb), há seis cursos de medicina em Salvador e Região Metropolitana. Quatro na capital e um em Lauro de Freitas. Segundo o Cremeb, são formados 510 médicos por ano nessas instituições. Ou seja, as três escolas que já possuem turmas concluintes: Ufba, Bahiana e a FTC. As demais passarão a formar as primeiras turmas a partir de 2018. Mas, esse número vai aumentar muito com a definição já aprovada de aumento das vagas das escolas privadas.

A Bahiana vai passar a formar 300 alunos por ano e a Unifacs vai formar 240 médicos por ano. A FTC ainda não tem aumento de vagas divulgado. A Unime formará sua primeira turma em 2019. Aí serão mais 100 médicos por ano. Isso sem falar nos seis cursos de Medicina das quatro universidades públicas do interior (Uesc, Uesb, UFRB e Uefs). É também no interior que, segundo a ABM, outros dez cursos particulares estão autorizados a ser criados.

Gastos continuam em cursos para chegar à residência

Depois de se formar, o estudante de medicina está longe de parar de gastar dinheiro. Se quiser se especializar em alguma área, ele vai precisar passar em uma prova que o conceda o direito a fazer uma residência, muitas delas com concorrências altíssimas. Para ajudar nessa missão, existem os cursos para as provas de residência, o Processo Seletivo Unificado para ingresso nos Programas de Residência em Área Profissional da Saúde, promovido pela Sesab. A maioria cobra entre R$ 1 mil e R$ 1,7 mil por mês.

Na Bahia, segundo a Comissão Estadual de Residência Médica, há, em média, 2,8 mil candidatos por ano, que prestam concurso para cerca de 700 vagas. São ofertadas 61 especialidades. As vagas são distribuídas por 38 Instituições em todo Estado (Capital e Interior. O tempo de duração varia de especialidade para especialidade.

Alguns programas tem duração de 2, 3, 4, chegando até 5 anos como a Neurocirurgia ou cirurgia cardiovascular. Durante as residências, geralmente vinculadas ao Ministério da Educação e à Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), o médico recebe uma bolsa que chega perto de R$ 3 mil.

Fonte: Correio 24 horas

*Valor informado por estudantes.

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