08/12/2017

O câncer e a ética

Thadeu Brenny Filho

A concepção mecanicista da vida tem dominado a atitude dos médicos em relação à saúde e à doença. A medicina se baseia na noção do corpo como uma máquina, da doença como uma avaria desta máquina e é centrada na ideia de que a função do médico é reparar essa avaria. Ao concentrar-se em partes cada vez menores do corpo humano, a medicina moderna perde a noção do ser humano em sua integralidade e, ao reduzir a saúde a um mero funcionamento mecânico. A isto se faz da medicina de hoje em especialidades e, delas, as áreas de atuação.

O processo de cura tem uma complexidade tão grande entre a queixa apresentada pelo paciente, o exame clínico e os infindáveis exames complementares e a decisão médica, que pode ser incompreensível a todos envolvidos e criar expectativas e temores. Outras abordagens, em que se tem buscado transcender o método clínico da medicina centrada na doença para um modelo de medicina centrada na pessoa têm predominado nas discussões acadêmicas.

Qualquer profissional de saúde que cultive o hábito da reflexão e que tenha desenvolvido um grau mínimo de discernimento pode constatar que as dimensões sutis e imponderáveis, às quais estão relacionados os aspectos emocional, cultural, social, familiar e espiritual, influenciam a forma como o ser humano adoece e também os processos de cura. E a ideia de que a necessidade do cultivo de um bom relacionamento médico-paciente sempre foi, é e sempre será a base de uma boa prática médica ainda persiste, apesar de, muitas vezes, ser obscurecida pelo véu do enfoque unilateral atribuído à tecnologia, especialização e novas terapêuticas, nem sempre aprovadas pelas FDA, Anvisa e CFM.

Nas condições em que os avanços científicos e tecnológicos são insuficientes para prover soluções, como, por exemplo, as que envolvem o cuidado a pacientes terminais, as limitações do modelo biomecânico (diagnóstico-tratamento-resultado) são evidentes, pois este não atende às necessidades de pacientes e familiares e, tampouco, de profissionais e estudantes da área de saúde. Usualmente, os últimos têm grande dificuldade em lidar com tais situações, uma vez que elas evidenciam sentimentos de derrota, incapacidade e frustração. E para se fugir desses sentimentos é comum a adoção de uma atitude de negação e distanciamento, o que faz com que pacientes e familiares se sintam isolados e desamparados. E negação, muitas vezes, aos pacientes mais instruídos de sua saúde pessoal, sempre imaginando o impensável do que a realidade nua e crua de uma doença neoplásica dita por seu médico (RBM Out 13 V 70 Especial Oncologia).

Da ética, neste pormenor importante, em seus Princípios Fundamentais assinala que “o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”. É de onde o médico envolve a doença, que passa a ser não mais somente de seu paciente, mas, também, da família do mesmo. E, ainda, que “compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente”. E vem a tecnologia a favor de nosso paciente e da esperança de seus familiares.

Do artigo 34, mais direto impossível: “ Deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, devendo, nesse caso, fazer a comunicação a seu representante legal”. O dano pode advir, sim, da própria terapêutica instituída, clínica, cirúrgica, radioterapia ou multimodal; mutiladora ou não, mas na certeza, não indeléveis ou permanentes faíscas na integridade física e moral de nosso assistido. O dano da verdade. Sim, é dura a notícia, mas pode ser como a quem perdoa seu ofensor, liberta a alma de ambos e cria-se o estado da verdade. Relativa ou absoluta.

E vem o questionamento ao profissional e ao paciente: o que queremos? o que podemos? Até onde iremos?

Da medicina baseada em relatos, humanizada e humanista, somam-se quatro letras estratégicas que resumem o bem atuar de ambos: SIFE. O “S” de sentimentos, “I” de ideias, “F” de função e o “E” de expectativas.

No entanto, nenhuma dessas estratégias alcançará a efetividade almejada sem a presença de um profissional de saúde que tenha atitudes, pelas quais demonstre ser digno da confiança nele depositada por estar dando o melhor de si para seus pacientes e para o público. Esta é a essência do profissionalismo médico, postura que alguns autores perfilam através de nove características: observar altos padrões morais e éticos; demonstrar compromisso contínuo com a excelência; buscar a excelência por meio da contínua aquisição de conhecimento e desenvolvimento de novas habilidades; lidar adequadamente com altos graus de incerteza e complexidade; demonstrar valores humanísticos como empatia e compaixão; honestidade e integridade; cuidado e altruísmo; lealdade e respeito pelo outro; e, finalmente, refletir sobre decisões e ações.

Boa parte de nosso trabalho médico é gerido pela emoção ao tratar um paciente e, de outro lado, a frustração como ângulo obtuso nessa relação ao enfrentarmos a dor do outro, a evolução não favorável e a iminente morte. Nas escolas médicas ensinam-se a ter o sucesso, o alívio ou a cura, mas confortar outrem e a nós mesmos, nem sempre. O bom médico não se distancia de seu paciente, não lhe nega o alívio, lhe provém luta enquanto a esperança e a emoção não lhe tirarem a razão de seus atos, ou de se ver inábel a estes sentimentos, declarando a derrota de si mesmo.

Thadeu Brenny Filho é conselheiro do CRM-PR, coordenador da Câmara Técnica de Urologia e professor convidado da Faculdade de Medicina da UFPR.
(Texto baseado em RBM Out 13 V 70 Especial Oncologiade Benedetto, Blasco e Gallian).

***As opiniões emitidas nos artigos desta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do CRM-PR.

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