03/03/2009

Busca de informações na internet modifica a relação médico-paciente

Apesar da exclusão digital, cerca de 40 milhões de brasileiros já são usuários da internet. Entre as razões pelas quais eles navegam está a busca de informações sobre saúde. Assim, juntamente com a figura do internauta, emerge um outro personagem: o "paciente expert" - definido como aquele que busca ativamente informações sobre sua doença (ou a de um familiar), sintomas, medicamentos, tratamentos e custos. Mas até que ponto esse "expert", munido de informações obtidas na internet, pode transformar a relação médico-paciente? Três pesquisadores da Fiocruz realizaram um estudo para tentar responder a essa pergunta.
Eles verificaram que o tema divide opiniões e que existem até posições antagônicas sobre o assunto. "De qualquer forma, as informações disponíveis na internet têm potencial para modificar a relação médico-paciente", dizem a doutoranda Helena Beatriz da Rocha Garbin e a médica Maria Cristina Rodrigues Guilam, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), e o historiador André de Faria Pereira Neto, da Casa de Oswaldo Cruz (COC), em artigo publicado no periódico Interface - Comunicação, Saúde, Educação.

O estudo - de base bibliográfica - consistiu na análise de 15 artigos que discutiam as possíveis conseqüências que fenômeno do "paciente expert" poderia ter sobre a profissão médica ou o saber médico. Esses artigos, publicados de 1997 a 2005 e assinados por pesquisadores de Reino Unido, Holanda, Estados Unidos e Canadá, foram selecionados em duas renomadas revistas científicas britânicas: Social Science and Medicine e Sociology of Health & Illness. O trio da Fiocruz dividiu os artigos analisados em três categorias, de acordo com os pontos de vista apresentados.

A primeira categoria reunia trabalhos segundo os quais o "paciente expert" promoveria a desprofissionalização do médico. Em outras palavras: as informações obtidas pelo paciente na internet abalariam o status do médico, na medida em que este deixaria de ter o monopólio do poder do conhecimento. Já os artigos da segunda categoria, ao contrário, sugeriam que o comportamento do "paciente expert" acabaria por fortalecer a profissão e o saber do médico. De acordo com esses trabalhos, os pacientes ainda confiam mais no médico do que nas fontes da internet e buscam informações na rede mais para complementar o que o médico diz do que para colocá-lo em xeque. Na terceira categoria de artigos, por sua vez, se encontram autores que não têm posição consolidada, pois enxergam a possibilidade de desafio ou de preservação da autoridade do médico e da medicina biomédica em função do tema em questão e do momento histórico da análise.

Apesar das diferenças entre as categorias, os pesquisadores da Fiocruz conseguiram identificar algumas características comuns. "A maioria dos artigos entende que os pacientes que têm acesso às informações, via internet, tornam-se potencialmente poderosos. Para os autores, essa nova condição pode influir e até transformar a relação dos médicos com seus pacientes.
Em termos gerais, acreditam que é fundamental que os profissionais procurem trabalhar com o paciente, ao invés de para ele, usando mais tempo para escutar, absorver e valorizar as necessidades cognitivas, sociais e emocionais de seus pacientes", afirmam os pesquisadores da Fiocruz. "Assim, o médico deve fornecer informações de boa qualidade, discutir questões referentes ao diagnóstico, tratamento e resultados, respeitando os desejos do paciente em relação à tomada de decisões. Para tal, é fundamental que os próprios médicos se mantenham informados e atualizados". No entanto, segundo a doutoranda Helena Garbin, é preciso entender a dificuldade de realizar tal tarefa nestes tempos de consultas médicas de 10 ou 15 minutos.

Os autores da Fiocruz reconhecem que a busca de informações sobre saúde na internet pode auxiliar o paciente a desenvolver uma postura menos passiva em relação ao discurso do médico, processo que resultaria em decisões mais compartilhadas por ambos. "Cabe lembrar, entretanto, que algumas comunidades virtuais, assim como muitos sites, podem ser simplesmente veículos de empresas comerciais, interessadas em divulgação de medicamentos, de novas tecnologias ou mesmo de valores que levem os usuários a buscar seus produtos", alertam os pesquisadores da Fundação. "Ressaltamos também os problemas causados pelos sites que divulgam informações erradas ou contraditórias".
Entre os exemplos negativos estão páginas que estimulam a automedicação ou que fazem apologia à anorexia: os internautas, portanto, devem redobrar a atenção - bem como a parceria com os profissionais da saúde - para não caírem nessas armadilhas.



Fonte: Fiocurz

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