04/09/2026

Do refúgio na Síria a um novo lar em Curitiba: conheça o recomeço da vida de Mohamad Feras Al-Lahham

O médico otorrinolaringologista desafiou os perigos de uma guerra civil para conquistar com a família uma nova chance de viver

clique para ampliarclique para ampliarMais de 11 mil quilômetros separam o nascimento em Damasco da nova vida em Curitiba. (Foto: CRM-PR)
Há histórias que começam em um lugar e se encerram a milhares de quilômetros dele. Damasco é uma das cidades mais antigas já registradas na história. Sua tradição percorre cinco milênios e as águas do Rio Barada e do oásis de Guta, que valeram a si o posto de principal cidade da Síria e um dos pontos fundantes do Berço da Civilização. A capital do país, conhecida em sua tradução literal como "Cidade dos Jasmins", é também uma das raízes que se ramificou nas três principais religiões monoteístas do mundo: cristianismo, islamismo e judaísmo.

Foi lá, em 1981, que um dos filhos pródigos de tão rica civilização nasceu. Em uma casa habitada por livros, estudos, idiomas, cultura e cinco crianças, Mohamad Feras Al-Lahham (CRM-PR 36.440 | RQE 22.744) cresceu como um cosmopolita nato. O futuro médico ganharia asas muitos anos depois, fazendo do mundo o seu verdadeiro lar, atravessando montanhas, fronteiras e oceanos até encontrar em Curitiba um novo endereço.

Filho de um engenheiro de aviação que também lecionava na Universidade de Damasco e de uma estudante de Engenharia que abdicou de uma vida de estudos para criar uma família inteira dedicada à educação. Muçulmano que estudou em uma escola católica, Mohamad e os irmãos cresceram em um ambiente em que o distinto era apreciado; a diversidade, valorizada; o conhecimento, estimulado; os laços, unificados. Em suma, uma infância distante do que a vida adulta presenciou durante anos com vidas ceifadas, amigos caídos e um lar destroçado pela Guerra Civil Síria. O coração do Oriente Médio sangrava, e Mohamad despertava para a medicina por outros veios.

O menino que queria curar o pai

A escolha pela medicina foi motivada pela curiosidade e pelo dever de responsabilidade que despontava no ainda jovem Mohamad. Na infância, diante de uma doença incurável, ele viu seu pai com outros olhos. Antes um herói inabalável, o patriarca passava a mostrar fragilidade com a telangiectasia hemorrágica hereditária, também conhecida como síndrome de Osler-Weber-Rendu. Doença genética rara, ela deforma os vasos sanguíneos e decorre em sangramentos repentinos e frequentes.

A condição fazia o pai sofrer com sangramentos nasais recorrentes e difíceis de controlar. Aos olhos do pequeno Mohamad, o médico otorrinolaringologista que conseguia interromper aqueles episódios parecia um ser mágico, dotado de um poder incompreensível. O jovem acompanhava o pai nas consultas e observava os procedimentos usados para conter as hemorragias. "Assim, prometi a mim mesmo: quando crescesse, seria otorrinolaringologista e encontraria uma maneira de curar meu pai", revela Mohamad.

clique para ampliarclique para ampliarO sonho pela medicina começou quando ainda era pequeno, com o desejo de curar o pai. (Foto: Acervo pessoal)
A promessa ganhou seu primeiro grande passo em 1998, quando, aos 17 anos, ele ingressou em Medicina na Universidade de Damasco. Na época, a formação médica durava sete anos: seis deles dedicados aos estudos e um obrigatório de prática clínica. O curso foi concluído em 2005, mas ainda faltavam duas coisas essenciais para sua realização: a especialização médica e a cura do pai.

Os olhos encantados da criança ganhavam outro significado nas mãos aparentemente mágicas do futuro otorrino, que ainda sonhava em curar o incurável. A vida, no entanto, trataria de mudar os rumos da promessa. Antes que a guerra começasse, antes que Curitiba surgisse, antes que a promessa fosse cumprida, o pai de Mohamad morreria em 2008, após anos lutando contra outra doença crônica. Quando o filho iniciou a residência em otorrinolaringologia, o pai já não estava ali para acompanhar a realização de um sonho.

Ainda sonhador, mas agora dedicado a outros pacientes, Mohamad hoje carrega a vontade de curar outras pessoas que padecem da mesma síndrome. Otorrinolaringologista formado, mestre e especialista, o médico transformou um desejo da infância na recuperação de tantos outros. Transformou vidas e ressignificou a sua própria vocação, não sem antes ele mesmo se ver no limiar de uma outra existência.

A guerra chega à porta de casa

A especialização levou Mohamad para longe de Damasco. Na Argélia, norte da África, fez residência próximo ao irmão Ahmad, que se especializou em ortodontia. A escolha do país também foi uma escolha de família: entre as possibilidades de residência no exterior, a Argélia era uma das opções que permitia aos dois seguirem juntos.

Foi durante esse período, em março de 2011, que a Primavera Árabe chegou à Síria. O movimento reivindicava melhorias em uma série de países do Oriente Médio, começando na Tunísia e se espalhando para Líbia, Egito, Iêmen, Bahrein e a Síria. Manifestações que começaram com o agrupamento de jovens nas redes sociais e de forma pacífica foram duramente reprimidas pelos governos locais, incluindo o sírio Bashar al-Assad. À época no poder há 11 anos e filho de um mandatário que ocupou o posto de presidente do país por quase três décadas, al-Assad usava o argumento de combater o terrorismo interno para pacificar o país.

Ainda na Argélia durante as primeiras revoltas, Mohamad só foi finalizar sua residência médica e especialização em 2013, quando o conflito atingia altos níveis de tensão e beirava os cem mil mortos, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele mesmo avalia a disputa não como uma guerra, mas como revolução.

"Nunca alguém matou o vizinho, o primo. Não existe isso, era uma revolução contra o regime. E o regime usou o máximo de brutalidade, máximo de violência contra o povo sírio, até que as pessoas tivessem que carregar uma arma e se defender", explica.

Ao fim do curso, a esperança inicial dos irmãos era retornar à Síria e esperar que o conflito terminasse. Mas Damasco já era outra cidade. Havia soldados, tanques, armas e atiradores nas ruas. Faltavam água, eletricidade, gás, combustível e comida. A moeda havia perdido grande parte de seu valor e a infraestrutura estava profundamente comprometida.

A decisão de partir, porém, não nasceu apenas da deterioração do cotidiano. Ela teve rostos e nomes dentro da própria família. A escola católica onde estudava a irmã mais nova foi bombardeada, matando mais de 15 amigas dela. Pouco depois, um carro-bomba explodiu próximo a sua outra irmã. Foi quando a família concluiu que a sobrevivência não era uma opção: era necessário viver plenamente, mesmo correndo riscos para conquistar a liberdade do outro lado do mundo.

Um médico, cuja vocação era salvar vidas, viu-se em conflito com a própria moralidade. Bolsista do governo sírio, era seu dever, sob a lei, apresentar-se ao exército. "Eu não sou um cara que vai matar alguém, mesmo para me defender. Isso vai contra meus princípios", define. Não era mais possível (sobre)viver em Damasco, assim como não foi para outros seis milhões de sírios que abandonaram o país devido ao conflito, de acordo com a ONU.

Uma travessia no escuro

Mohamad, com os olhos profundos de sabedoria, mas serenos de quem deu a volta por cima, revela o árduo trajeto que enfrentou. A saída da Síria foi planejada em segredo. A família vendeu o que podia, dos carros às joias, e organizou uma rota clandestina até o Líbano. Antes do amanhecer, com apenas a roupa do corpo e poucos mantimentos, a mãe e os cinco filhos atravessaram as montanhas que separam os dois países. Em determinado ponto, foram abordados por soldados sírios. Em um país onde as leis já não mais imperavam, o suborno parecia e foi viável. A família pagou ao oficial para seguir viagem.

clique para ampliarclique para ampliarPara Mohamad, o verdadeiro lar são as pessoas que fazem a vida valer a pena. (Foto: Acervo pessoal)
Em Beirute, capital do Líbano, os seis começaram outra peregrinação: a de porta em porta pelas embaixadas em busca de um novo lar. De um pequeno hotel onde ficou temporariamente alojada, a família preparou uma pasta para cada membro com diplomas, documentos e comprovantes de suas qualificações profissionais. Foram feitas dezenas de cópias com o intuito de distribuir ao máximo de embaixadas possíveis. Depois, começaram as tentativas de conseguir asilo.

O Canadá demonstrou interesse em receber Mohamad, especialmente pela formação médica e pelo domínio do francês, mas a possibilidade de reunificação familiar poderia levar meses, sem garantias. Ele recusou. A França também não ofereceu uma solução para todos. A condição era simples, independentemente do país: ou a família iria junta, ou ninguém iria. Foi então que surgiu o Brasil, destino de mais de 4 mil sírios que deixaram a guerra, segundo a ONU.

A embaixada brasileira em Beirute ofereceu acolhimento para toda a família. Mohamad, a mãe e os irmãos foram recebidos pelo cônsul para uma entrevista de duas horas. "O Brasil vai ficar muito feliz em receber vocês, porque vocês vão ser uma riqueza para o nosso país", disse o cônsul ao conceder vistos humanitários aos seis. O país que, até então, era conhecido por Mohamad principalmente pelo futebol, Carnaval e pela língua "espanhola", agora o deixava emocionado com a possibilidade de um recomeço.

Por sugestão do próprio cônsul, a família considerou cidades do Sul. Depois de pesquisas pela internet, no ainda popular Facebook, a escolha caiu sobre Curitiba, a mais de 11 mil quilômetros de Damasco. Eles chegaram à cidade em uma época cara a cristãos, igualmente inspiradora a outras vertentes religiosas, como a de Mohamad e sua família: 25 de dezembro, no Natal. A data que celebra a vinda de Cristo ao mundo virou também o dia em que seis refugiados sírios renasceram em solo brasileiro.

O novo significado de casa

clique para ampliarclique para ampliarNo Rio Grande do Sul, ganhou novos amores: o Grêmio e a erva-mate. (Foto: Acervo pessoal)
Recomeçar, porém, exigia mais do que atravessar uma fronteira. Era necessário aprender uma nova língua, reconstruir uma carreira e, de certa maneira, reaprender a viver. Mohamad foi para Porto Alegre para revalidar o diploma de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A cidade se transformaria em uma nova casa afetiva, onde aprendeu a gostar de churrasco, erva-mate e a torcer para o Grêmio, clube de futebol conhecido pela resistência diante de situações aparentemente incontornáveis. Foi também ali que revalidou o título de especialista em otorrinolaringologia.

Depois, voltou para Curitiba e retomou a vida profissional. Em 2016, abriu uma clínica com o irmão ortodontista, sócios até hoje. Além dos atendimentos regulares, o estabelecimento passou a reservar consultas gratuitas para refugiados sem condições financeiras, incluindo medicamentos e exames.

A reconstrução também alcançou os demais irmãos. A família se espalhou pelas cidades brasileiras e instituições como a Federal do Paraná (UFPR), Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Cada um encontrou seu próprio caminho, na medicina, engenharia, farmácia, arquitetura e outras áreas, mas todos carregam uma história em comum: chegaram ao Brasil como refugiados, despatriados e sem um lar.

É nessas condições em que mora a sabedoria de Mohamad e o ímpeto em atravessar as dificuldades. "Eu não sei por que as pessoas perguntam se eu sinto falta de Damasco. Eu falo para eles que não. Para mim, Curitiba é Damasco. Eu descobri, depois de tanto tempo, que não é do lugar que você sente saudades. É da família. Essa é a minha Damasco", resume.

Quando a medicina atravessa fronteiras e ganha as letras

A profissão também ganhou outro significado depois do refúgio. Mohamad passou a atuar em missões humanitárias e com organizações voltadas ao atendimento de populações refugiadas.
Em 2021, trabalhou com os Médicos Sem Fronteiras em uma região próxima à fronteira da Grécia, onde chegavam refugiados sírios. Ali fazia questão de se apresentar não como um médico sírio, mas como um médico brasileiro. Levava consigo sete idiomas (árabe, inglês, francês, alemão, espanhol, berbere e português), mas, principalmente, um par de ouvidos disposto a ouvir quem mais precisava.

Em 2022, esteve em Roraima, na Operação Acolhida, trabalhando com o Exército Brasileiro em campos destinados a refugiados venezuelanos. Em uma das missões, levou cerca de 50 quilos de medicamentos, contando com doações de laboratórios e apoio de uma companhia aérea para transportar parte da carga. A ajuda humanitária, para ele, não termina ao fim do expediente. Quem um dia precisou bater à porta de outros países para pedir acolhimento agora abre portas para quem está do outro lado, também em busca de um novo recomeço.

clique para ampliarclique para ampliarAs memórias ganharam as páginas no livro; na foto, ao lado do presidente do CRM-PR, Eduardo Baptistella. (Foto: Acervo pessoal)
Entre tantas reconstruções, existe uma que começou de maneira silenciosa, com a caneta ocupando as mãos em vez do otoscópio. Enquanto enfrentava dificuldades de adaptação na chegada ao Brasil, insegurança com o idioma e momentos de solidão, Mohamad procurou ajuda para entender mais da própria saúde mental. Uma psicóloga que o atendia sugeriu que ele escrevesse um diário. No começo, era apenas uma maneira de conversar consigo mesmo. Depois, as páginas começaram a acumular memórias.

A escrita acompanhou os momentos mais difíceis: dias sem dinheiro, sem comida, sem amigos e sem saber exatamente o que viria depois. Ele escrevia em árabe, a língua em que pensa, sonha e organiza as emoções. Aos poucos, o diário deixou de ser apenas um registro pessoal e ganhou a forma de um livro.

Hoje, publicar essa obra é uma de suas principais prioridades. Não quer que seja apenas uma autobiografia. Para Mohamad, o livro é também um desafio, não somente dele, mas de qualquer pessoa que atravesse períodos de dificuldade e precise encontrar uma maneira de continuar. Por isso, prefere guardar alguns capítulos dessa história para as páginas da obra, longe das telas e da internet.

O homem que precisou deixar seu país para sobreviver agora tenta voltar a ele pela memória. Não para reconstruir Damasco em palavras, ou buscar o conforto de um lar que há muito não o é, mas para lavrar e eternizar o caminho entre o menino que queria salvar o pai e o médico que hoje dedica parte da vida a salvar outras pessoas.

Um brasileiro que nasceu em Damasco

Em dezembro de 2024, o regime de Bashar al-Assad chegou ao fim. O ditador fugiu para a Rússia, e o regime caiu após a entrada de forças rebeldes em Damasco, encerrando décadas de domínio da família Assad e mais de 650 mil mortos na guerra. Mesmo assim, Mohamad não pretende voltar para a Síria, seja neste momento de transição para uma possível democracia ou para um futuro mais estável.

A casa que ficou em Damasco, onde cresceu com os irmãos, permanece fechada, assim como o antigo consultório. Os dois lugares agora permanecem às lembranças de outra vida. O que importa, diz ele, está aqui: a mãe, os irmãos, os sobrinhos, os amigos, os pacientes e uma carreira reconstruída em outro idioma. “Eu sou brasileiro. Eu sou médico brasileiro”, afirma, com orgulho.

Mohamad não deixou de ser sírio para se tornar brasileiro. Trouxe consigo os idiomas, o apreço pelo rock n' roll, a paixão pelo jiu-jitsu, a medicina, o cuidado com o próximo, a família, as memórias e as cicatrizes. E encontrou no Brasil espaço para transformar tudo isso em outra coisa: um novo lar.

Para Mohamad, o verdadeiro lar nunca foi o lugar de onde se veio. É o lugar onde estão aqueles que fazem a vida continuar. Aqueles com quem uma travessia nas montanhas escuras ganha o brilho do horizonte.

clique para ampliarclique para ampliarLançamento do livro na Sede do CRM-PR reuniu mais de 500 pessoas. (Foto: CRM-PR)
Lançamento do livro

"Recomeço – Uma história de perseverança" ganhou as prateleiras em agosto de 2026. No dia 8, a Sede do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) recebeu Mohamad para uma sessão especial de lançamento. Ao lado de médicos, colegas e amigos, ele lançou a obra, em evento aberto ao público, das 14h às 18h.

No evento, cerca de 500 pessoas prestigiaram o lançamento e puderam acompanhar de perto o relato de superação de Mohamad.

O livro pode ser adquirido em seu site próprio: www.livrorecomeco.com.br.

Histórias que inspiram

O Dr. Mohamad é o terceiro participante da série "Histórias que inspiram" do CRM-PR, que se propõe a compartilhar histórias de profissionais da Medicina que vão além da prática médica, explorando as dimensões da vivência humana, sempre com uma boa dose de otimismo e amor pela vida. Sugestões de personagens podem ser encaminhadas por e-mail (comunicacao@crmpr.org.br), com formas de contato. Será observada a ordem de indicações. 

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