O médico otorrinolaringologista desafiou os perigos de uma guerra civil para conquistar com a família uma nova chance de viver
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Mais de 11 mil quilômetros separam o nascimento em Damasco
da nova vida em Curitiba. (Foto: CRM-PR)
Há histórias que começam em um lugar
e se encerram a milhares de quilômetros dele. Damasco é uma das cidades mais antigas já registradas na
história. Sua tradição percorre cinco milênios e as águas do Rio Barada e do oásis
de Guta, que valeram a si o posto de principal cidade da Síria e um dos pontos fundantes do Berço da Civilização.
A capital do país, conhecida em sua tradução literal como "Cidade dos Jasmins", é também
uma das raízes que se ramificou nas três principais religiões monoteístas do mundo: cristianismo,
islamismo e judaísmo.
Foi lá, em 1981, que um dos filhos pródigos de tão rica civilização
nasceu. Em uma casa habitada por livros, estudos, idiomas, cultura e cinco crianças, Mohamad Feras Al-Lahham (CRM-PR
36.440 | RQE 22.744) cresceu como um cosmopolita nato. O futuro médico ganharia asas muitos anos depois, fazendo do
mundo o seu verdadeiro lar, atravessando montanhas, fronteiras e oceanos até encontrar em Curitiba um novo endereço.
Filho
de um engenheiro de aviação que também lecionava na Universidade de Damasco e de uma estudante de Engenharia
que abdicou de uma vida de estudos para criar uma família inteira dedicada à educação. Muçulmano
que estudou em uma escola católica, Mohamad e os irmãos cresceram em um ambiente em que o distinto era
apreciado; a diversidade, valorizada; o conhecimento, estimulado; os laços, unificados. Em suma, uma infância
distante do que a vida adulta presenciou durante anos com vidas ceifadas, amigos caídos e um lar destroçado
pela Guerra Civil Síria. O coração do Oriente Médio sangrava, e Mohamad despertava para a medicina
por outros veios.
O menino que queria curar o pai
A escolha pela medicina
foi motivada pela curiosidade e pelo dever de responsabilidade que despontava no ainda jovem Mohamad. Na infância, diante
de uma doença incurável, ele viu seu pai com outros olhos. Antes um herói inabalável, o patriarca
passava a mostrar fragilidade com a telangiectasia hemorrágica hereditária, também conhecida como síndrome
de Osler-Weber-Rendu. Doença genética rara, ela deforma os vasos sanguíneos e decorre em sangramentos
repentinos e frequentes.
A condição fazia o pai sofrer com sangramentos nasais recorrentes e difíceis
de controlar. Aos olhos do pequeno Mohamad, o médico otorrinolaringologista que conseguia interromper aqueles episódios
parecia um ser mágico, dotado de um poder incompreensível. O jovem acompanhava o pai nas consultas e observava
os procedimentos usados para conter as hemorragias. "Assim, prometi a mim mesmo: quando crescesse, seria otorrinolaringologista
e encontraria uma maneira de curar meu pai", revela Mohamad.
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O sonho pela medicina começou quando ainda era pequeno,
com o desejo de curar o pai. (Foto: Acervo pessoal)
A promessa ganhou seu primeiro grande passo em 1998, quando,
aos 17 anos, ele ingressou em Medicina na Universidade de Damasco. Na época, a formação médica
durava sete anos: seis deles dedicados aos estudos e um obrigatório de prática clínica. O curso foi concluído
em 2005, mas ainda faltavam duas coisas essenciais para sua realização: a especialização médica
e a cura do pai.
Os olhos encantados da criança
ganhavam outro significado nas mãos aparentemente mágicas do futuro otorrino, que ainda sonhava em curar o incurável.
A vida, no entanto, trataria de mudar os rumos da promessa. Antes que a guerra começasse, antes que Curitiba surgisse,
antes que a promessa fosse cumprida, o pai de Mohamad morreria em 2008, após anos lutando contra outra doença
crônica. Quando o filho iniciou a residência em otorrinolaringologia, o pai já não estava ali para
acompanhar a realização de um sonho.
Ainda
sonhador, mas agora dedicado a outros pacientes, Mohamad hoje carrega a vontade de curar outras pessoas que padecem da mesma
síndrome. Otorrinolaringologista formado, mestre e especialista, o médico transformou um desejo da infância
na recuperação de tantos outros. Transformou vidas e ressignificou a sua própria vocação,
não sem antes ele mesmo se ver no limiar de uma outra existência.
A guerra chega à porta de casa
A especialização
levou Mohamad para longe de Damasco. Na Argélia, norte da África, fez residência próximo ao irmão
Ahmad, que se especializou em ortodontia. A escolha do país também foi uma escolha de família: entre
as possibilidades de residência no exterior, a Argélia era uma das opções que permitia aos dois
seguirem juntos.
Foi durante esse período, em março de 2011, que a Primavera Árabe
chegou à Síria. O movimento reivindicava melhorias em uma série de países do Oriente Médio,
começando na Tunísia e se espalhando para Líbia, Egito, Iêmen, Bahrein e a Síria. Manifestações
que começaram com o agrupamento de jovens nas redes sociais e de forma pacífica foram duramente reprimidas pelos
governos locais, incluindo o sírio Bashar al-Assad.
À época no poder há 11 anos e filho de um mandatário que ocupou o posto de presidente do país
por quase três décadas, al-Assad usava o argumento de combater o terrorismo interno para pacificar o país.
Ainda
na Argélia durante as primeiras revoltas, Mohamad só foi finalizar sua residência médica e especialização
em 2013, quando o conflito atingia altos níveis de tensão e beirava os cem mil mortos, segundo dados da Organização
das Nações Unidas (ONU). Ele mesmo avalia a disputa não como uma guerra, mas como revolução.
"Nunca
alguém matou o vizinho, o primo. Não existe isso, era uma revolução
contra o regime. E o regime usou o máximo de brutalidade, máximo de violência contra o povo sírio,
até que as pessoas tivessem que carregar uma arma e se defender", explica.
Ao fim do curso,
a esperança inicial dos irmãos era retornar à Síria e esperar que o conflito terminasse. Mas Damasco
já era outra cidade. Havia soldados, tanques, armas e atiradores nas ruas. Faltavam água, eletricidade, gás,
combustível e comida. A moeda havia perdido grande parte de seu valor e a infraestrutura estava profundamente comprometida.
A
decisão de partir, porém, não nasceu apenas da deterioração do cotidiano. Ela teve rostos
e nomes dentro da própria família. A escola católica onde estudava a irmã mais nova foi bombardeada,
matando mais de 15 amigas dela. Pouco depois, um carro-bomba explodiu próximo a sua outra irmã. Foi quando a
família concluiu que a sobrevivência não era uma opção: era necessário viver plenamente,
mesmo correndo riscos para conquistar a liberdade do outro lado do mundo.
Um médico, cuja
vocação era salvar vidas, viu-se em conflito com a própria moralidade. Bolsista do governo sírio,
era seu dever, sob a lei, apresentar-se ao exército. "Eu não sou um cara que vai matar alguém,
mesmo para me defender. Isso vai contra meus princípios", define. Não era mais possível (sobre)viver
em Damasco, assim como não foi para outros seis milhões de sírios que abandonaram o país devido
ao conflito, de acordo com a ONU.
Uma travessia no escuro
Mohamad, com os olhos profundos de sabedoria, mas serenos de quem
deu a volta por cima, revela o árduo trajeto que enfrentou. A saída da Síria foi planejada em segredo.
A família vendeu o que podia, dos carros às joias, e organizou uma rota clandestina até o Líbano.
Antes do amanhecer, com apenas a roupa do corpo e poucos mantimentos, a mãe e os cinco filhos atravessaram as montanhas
que separam os dois países. Em determinado
ponto, foram abordados por soldados sírios. Em um país onde as leis já não mais imperavam, o suborno
parecia e foi viável. A família pagou ao oficial para seguir viagem.
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Para Mohamad, o verdadeiro lar são as pessoas que fazem
a vida valer a pena. (Foto: Acervo pessoal)
Em Beirute, capital do Líbano, os seis começaram
outra peregrinação: a de porta em porta pelas embaixadas em busca de um novo lar. De um pequeno hotel onde ficou
temporariamente alojada, a família preparou uma pasta para cada membro com diplomas, documentos e comprovantes de suas
qualificações profissionais. Foram feitas dezenas de cópias com o intuito de distribuir ao máximo
de embaixadas possíveis. Depois, começaram as tentativas de conseguir asilo.
O Canadá
demonstrou interesse em receber Mohamad, especialmente pela formação médica e pelo domínio do
francês, mas a possibilidade de reunificação familiar poderia levar meses, sem garantias. Ele recusou.
A França também não ofereceu uma solução para todos. A condição era simples,
independentemente do país: ou a família iria junta, ou ninguém iria. Foi então
que surgiu o Brasil, destino de mais de 4 mil sírios que deixaram a guerra, segundo a ONU.
A embaixada
brasileira em Beirute ofereceu acolhimento para toda a família. Mohamad, a mãe e os irmãos foram recebidos
pelo cônsul para uma entrevista de duas horas. "O Brasil vai ficar muito feliz em receber vocês, porque
vocês vão ser uma riqueza para o nosso país", disse o cônsul ao conceder vistos humanitários
aos seis. O país que, até então, era conhecido por Mohamad principalmente pelo futebol, Carnaval e pela
língua "espanhola", agora o deixava emocionado com a possibilidade de um recomeço.
Por sugestão
do próprio cônsul, a família considerou cidades do Sul. Depois de pesquisas pela internet, no ainda popular
Facebook, a escolha caiu sobre Curitiba, a mais de 11 mil quilômetros de Damasco. Eles chegaram à cidade em uma
época cara a cristãos, igualmente inspiradora a outras vertentes religiosas, como a de Mohamad e sua família:
25 de dezembro, no Natal. A data que celebra a vinda de Cristo ao mundo virou também o dia em que seis refugiados sírios
renasceram em solo brasileiro.
O novo significado de casa
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No Rio Grande do Sul, ganhou novos amores: o Grêmio e a erva-mate. (Foto: Acervo pessoal)
Recomeçar, porém, exigia mais do que atravessar
uma fronteira. Era necessário aprender uma nova língua, reconstruir uma carreira e, de certa maneira, reaprender
a viver. Mohamad foi para Porto Alegre para revalidar
o diploma de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A cidade se transformaria em uma nova casa afetiva, onde
aprendeu a gostar de churrasco, erva-mate e a torcer para o Grêmio, clube de futebol conhecido pela resistência
diante de situações aparentemente incontornáveis. Foi também ali que revalidou o título
de especialista em otorrinolaringologia.
Depois, voltou para Curitiba e retomou a vida profissional. Em
2016, abriu uma clínica com o irmão ortodontista, sócios até hoje. Além dos atendimentos
regulares, o estabelecimento passou a reservar consultas gratuitas para refugiados sem condições financeiras,
incluindo medicamentos e exames.
A reconstrução também alcançou os demais
irmãos. A família se espalhou pelas cidades brasileiras e instituições como a Federal do Paraná
(UFPR), Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(UERJ). Cada um encontrou seu próprio caminho, na medicina, engenharia, farmácia, arquitetura e outras áreas,
mas todos carregam uma história em comum: chegaram ao Brasil como refugiados, despatriados e sem um lar.
É
nessas condições em que mora a sabedoria de Mohamad e o ímpeto em atravessar as dificuldades. "Eu
não sei por que as pessoas perguntam se eu sinto falta de Damasco. Eu falo para eles que não. Para mim, Curitiba
é Damasco. Eu descobri, depois de tanto tempo, que não é do lugar que você sente saudades. É
da família. Essa é a minha Damasco", resume.
Quando a medicina atravessa fronteiras e ganha as letras
A profissão
também ganhou outro significado depois do refúgio. Mohamad passou a atuar em missões humanitárias
e com organizações voltadas ao atendimento de populações refugiadas.
Em 2021, trabalhou com os Médicos Sem Fronteiras
em uma região próxima à fronteira da Grécia, onde chegavam refugiados sírios. Ali fazia
questão de se apresentar não como um médico sírio, mas como um médico brasileiro. Levava
consigo sete idiomas (árabe, inglês, francês, alemão, espanhol, berbere e português), mas,
principalmente, um par de ouvidos disposto a ouvir quem mais precisava.
Em 2022, esteve em Roraima,
na Operação Acolhida, trabalhando com o Exército Brasileiro em campos destinados a refugiados venezuelanos.
Em uma das missões, levou cerca de 50 quilos de medicamentos, contando com doações de laboratórios
e apoio de uma companhia aérea para transportar parte da carga. A ajuda humanitária, para ele,
não termina ao fim do expediente. Quem um dia precisou bater à porta de outros países para pedir acolhimento
agora abre portas para quem está do outro lado, também em busca de um novo recomeço.
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As memórias ganharam as páginas no livro; na foto, ao lado do presidente do CRM-PR, Eduardo
Baptistella. (Foto: Acervo pessoal)
Entre tantas reconstruções, existe uma que
começou de maneira silenciosa, com a caneta ocupando as mãos em vez do otoscópio. Enquanto enfrentava
dificuldades de adaptação na chegada ao Brasil, insegurança com o idioma e momentos de solidão,
Mohamad procurou ajuda para entender mais da própria saúde mental. Uma psicóloga que o atendia sugeriu
que ele escrevesse um diário. No começo, era apenas uma maneira de conversar consigo mesmo. Depois, as páginas
começaram a acumular memórias.
A escrita acompanhou os momentos mais difíceis: dias sem
dinheiro, sem comida, sem amigos e sem saber exatamente o que viria depois. Ele escrevia em árabe, a língua
em que pensa, sonha e organiza as emoções. Aos poucos, o diário deixou de ser apenas um registro pessoal
e ganhou a forma de um livro.
Hoje, publicar essa obra é uma de suas principais prioridades.
Não quer que seja apenas uma autobiografia. Para Mohamad, o livro é também um desafio, não somente
dele, mas de qualquer pessoa que atravesse períodos de dificuldade e precise encontrar uma maneira de continuar. Por
isso, prefere guardar alguns capítulos dessa história para as páginas da obra, longe das telas e da internet.
O
homem que precisou deixar seu país para sobreviver agora tenta voltar a ele pela memória. Não para reconstruir
Damasco em palavras, ou buscar o conforto de um lar que há muito não o é, mas para lavrar e eternizar
o caminho entre o menino que queria salvar o pai e o médico que hoje dedica parte da vida a salvar outras pessoas.
Um brasileiro que nasceu em Damasco
Em
dezembro de 2024, o regime de Bashar al-Assad chegou ao fim. O ditador fugiu para a Rússia, e o regime caiu após
a entrada de forças rebeldes em Damasco, encerrando décadas de domínio da família Assad e mais
de 650 mil mortos na guerra. Mesmo assim, Mohamad
não pretende voltar para a Síria, seja neste momento de transição para uma possível democracia
ou para um futuro mais estável.
A casa que ficou em Damasco, onde cresceu com os irmãos,
permanece fechada, assim como o antigo consultório. Os dois lugares agora permanecem às lembranças de
outra vida. O que importa, diz ele, está aqui: a mãe, os irmãos, os sobrinhos, os amigos, os pacientes
e uma carreira reconstruída em outro idioma. “Eu sou brasileiro. Eu sou médico brasileiro”,
afirma, com orgulho.
Mohamad não
deixou de ser sírio para se tornar brasileiro. Trouxe consigo os idiomas, o apreço pelo rock n' roll, a paixão
pelo jiu-jitsu, a medicina, o cuidado com o próximo, a família, as memórias e as cicatrizes. E encontrou
no Brasil espaço para transformar tudo isso em outra coisa: um novo lar.
Para Mohamad, o verdadeiro lar nunca foi o lugar de onde se veio. É o lugar
onde estão aqueles que fazem a vida continuar. Aqueles com quem uma travessia nas montanhas escuras ganha o brilho
do horizonte.
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Lançamento do livro na Sede do CRM-PR reuniu mais de
500 pessoas. (Foto: CRM-PR)
Lançamento do livro
"Recomeço
– Uma história de perseverança" ganhou as prateleiras em agosto de 2026. No dia 8, a Sede do Conselho
Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) recebeu Mohamad para uma sessão especial de lançamento. Ao lado
de médicos, colegas e amigos, ele lançou a obra, em evento aberto ao público, das 14h às 18h.
No
evento, cerca de 500 pessoas prestigiaram o lançamento e puderam acompanhar de perto o relato de superação
de Mohamad.
O livro pode ser adquirido em seu site próprio: www.livrorecomeco.com.br.
Histórias
que inspiram
O Dr. Mohamad é o terceiro participante da série "Histórias que inspiram"
do CRM-PR, que se propõe a compartilhar histórias de profissionais da Medicina que vão além da
prática médica, explorando as dimensões da vivência humana, sempre com uma boa dose de otimismo
e amor pela vida. Sugestões de personagens podem ser encaminhadas por e-mail (comunicacao@crmpr.org.br),
com formas de contato. Será observada a ordem de indicações.