O primeiro Exame Nacional de Avaliação
do Ensino Médico (Enamed), realizado em janeiro de 2026, trouxe à tona um debate urgente e necessário
sobre a formação médica no Brasil. Os resultados revelaram que 33% dos 39 mil estudantes concluintes
avaliados não atingiram a proficiência mínima esperada para o exercício seguro da profissão.
Considero esse dado preocupante e que exige reflexão séria por parte das instituições formadoras,
órgãos reguladores e da sociedade.
O tema ganhou repercussão internacional em artigo
publicado pelo The BMJ, tradicional periódico científico britânico, que analisou os impactos da expansão
descontrolada de escolas médicas no país. Fui uma das fontes ouvidas na reportagem e classifiquei os resultados
como “trágicos, mas não surpreendentes”, diante dos alertas feitos há anos sobre a abertura
indiscriminada de cursos de Medicina.
Mais do que números, o exame evidencia consequências
de um processo de crescimento acelerado dos cursos médicos nas últimas décadas, muitas vezes dissociado
de critérios rigorosos de qualidade. A abertura de novas escolas nem sempre foi acompanhada da necessária estrutura
acadêmica, hospitalar e pedagógica indispensável à formação adequada dos futuros
profissionais.
A Medicina exige preparo técnico sólido,
responsabilidade ética e capacidade de tomada de decisão diante de situações complexas e, muitas
vezes, urgentes. Não se trata apenas de transmitir conteúdo teórico, mas de desenvolver competências
clínicas, raciocínio crítico e segurança assistencial. Quando esses pilares não são
garantidos, o prejuízo recai diretamente sobre a população.
Os resultados insatisfatórios obtidos por parte
significativa das instituições avaliadas motivaram medidas do Ministério da Educação, como
bloqueio de novas vagas e redução de matrículas. Embora representem uma resposta institucional, tais
providências também demonstram que o problema se tornou estrutural e não pode mais ser ignorado.
É fundamental compreender que a baixa qualidade
no ensino médico ultrapassa os limites das salas de aula. Ela impacta o atendimento prestado à sociedade, a
confiança nas instituições e a própria valorização da profissão médica.
Formar médicos sem a devida qualificação coloca em risco pacientes, sobrecarrega serviços de saúde
e fragiliza todo o sistema assistencial.
Outro desafio relevante diz respeito à residência
médica. Enquanto o número de graduados cresceu de forma expressiva nos últimos anos, a ampliação
das vagas de especialização não acompanhou esse ritmo. Isso cria um gargalo preocupante, limitando a
continuidade da formação prática supervisionada e dificultando a inserção adequada de novos
profissionais no mercado.
Também merece atenção a política
de interiorização de médicos. Levar profissionais a regiões distantes é medida importante,
mas insuficiente quando não há estrutura mínima de trabalho, acesso a exames complementares, equipes
multiprofissionais e condições adequadas de atendimento. A permanência do médico depende de ambiente
que permita exercer a Medicina com dignidade e segurança.
Nesse contexto, ganha relevância o debate sobre
mecanismos adicionais de avaliação da formação médica, inclusive exames de proficiência
vinculados ao registro profissional. Entendo que o objetivo central de qualquer medida deve ser a proteção da
sociedade e a garantia de que todo médico ingressante reúna os conhecimentos e competências mínimas
exigidas para o cuidado responsável à vida humana.
O Brasil necessita de uma política séria
para o ensino médico, baseada em planejamento, qualidade e compromisso social. Abrir cursos sem estrutura, multiplicar
vagas sem critérios e ignorar deficiências formativas produz efeitos duradouros e perigosos.
Defender a boa formação médica
é defender a saúde da população. Valorizar o ensino de excelência, fortalecer a fiscalização
e priorizar critérios técnicos são passos indispensáveis para assegurar que a Medicina brasileira
continue sendo exercida com competência, ética e responsabilidade.
Dr. Alcindo Cerci Neto é representante
do Conselho Federal de Medicina no Paraná, professor da Universidade Estadual de Londrina e foi uma das fontes entrevistadas
pelo The BMJ sobre os desafios da formação médica no Brasil.
As opiniões emitidas nos artigos desta
seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento
do CRM-PR.