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08/03/2026

Oftalmologista de Curitiba transforma diagnóstico neurológico em história de superação

Após enfrentar um diagnóstico neurológico e anos de afastamento da prática médica, a médica Juliana Rifas Nico Sobrinho ressignificou sua trajetória e transformou a própria experiência em inspiração para outros médicos e pacientes

clique para ampliarclique para ampliarDra. Juliana é médica oftalmologista e escritora. Integra a Comissão da Mulher Médica do CRM-PR, participa de congressos, auxilia em cirurgias e compartilha sua experiência com médicos em formação. (Foto: Acervo pessoal)
A trajetória da Dra. Juliana Rifas Nico Sobrinho (CRM-PR 19.883 | RQE 13.386), médica oftalmologista de Curitiba, é marcada por dedicação à Medicina, formação em diferentes centros do Brasil e do exterior e, mais recentemente, por uma profunda ressignificação da própria vida após o diagnóstico de uma doença neurológica rara. Entre desafios pessoais e profissionais, ela encontrou novas formas de exercer aquilo que sempre considerou essencial na prática médica: o cuidado com o outro.

Curitibana e filha de bancários, a decisão de seguir a Medicina surgiu ainda na adolescência, em um momento difícil vivido pela família. Quando tinha cerca de 12 anos, seu pai sofreu um infarto grave e ficou internado na UTI do Hospital Evangélico. Durante uma das visitas ao hospital, uma cena marcante mudou sua forma de enxergar o mundo.

“Chegou uma ambulância com uma família inteira queimada. Eu lembro até hoje do cheiro da fumaça, do barulho da ambulância e dos gritos. Aquilo me marcou profundamente. Naquele momento eu pensei: eu não quero estar do lado de lá, eu quero estar do lado de cá, ajudando”, recorda.

Anos depois, ingressou no curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Durante a graduação, teve interesse por diversas áreas, mas acabou optando pela oftalmologia, especialidade que conciliava atuação clínica e cirúrgica. A residência médica foi realizada no Hospital Universitário Cajuru.

clique para ampliarclique para ampliarEquipe do H.Olhos Paulista, em São Paulo (Foto: Acervo pessoal)
Em busca de aperfeiçoamento, mudou-se para São Paulo, onde realizou subespecializações em oncologia ocular, ultrassonografia ocular e oculoplástica, com formação na Escola Paulista de Medicina e na Santa Casa de São Paulo. O período também foi marcado por intensa atuação profissional, participação em congressos e atividades acadêmicas.

Na oftalmologia oncológica, lidava diariamente com situações extremamente delicadas. Muitos de seus pacientes eram crianças com tumores oculares, e comunicar diagnósticos e decisões terapêuticas exigia não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade humana.

clique para ampliarclique para ampliarDra. Juliana em palestra para crianças no Cento de Educação Infantil Ponto a Ponto (Foto: Acervo pessoal)
“Eu precisava dar notícias muito difíceis. Em alguns casos, precisava explicar para os pais que seria necessário retirar o olho do filho para salvar a vida da criança. Não é algo que você simplesmente comunica. É um momento de muita dor para a família”, relata.

Segundo ela, essas experiências ajudaram a moldar sua forma de exercer a Medicina. “Sempre acreditei que o cuidado não está só no procedimento, mas na forma como você acolhe o paciente naquele momento. Muitas vezes, a entrega emocional também faz parte do tratamento. Muitos pacientes já sabem sobre o seu diagnóstico; o que eles querem saber é se você, como médico, estará com eles em todas as etapas, em todos os momentos, sejam eles fáceis ou difíceis".

Durante esse período, também acompanhou o então marido em uma qualificação fora do país. Em 2010, o casal foi para os Estados Unidos para uma experiência acadêmica na Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF). Na ocasião, Juliana participou como Observation Fellow no setor de oculoplástica da instituição.

Mesmo em meio a uma carreira promissora, alguns sinais começaram a surgir. Durante o período em que vivia em São Paulo, a médica passou a apresentar sintomas neurológicos como tonturas, fasciculações nas mãos e alterações na coordenação motora.

Inicialmente, acreditou que fosse apenas estresse, consequência de uma rotina intensa de trabalho. Após diversas consultas e exames, foi identificado um tumor cerebral benigno, um meningioma, que foi removido cirurgicamente em 2009.

De volta ao Brasil, decidiram viver em São Luís (MA), onde atuaram em um hospital oftalmológico em expansão. Foi nesse período que a Dra. Juliana teve seu primeiro filho. Após dois anos no Nordeste, a família optou por retornar a Curitiba e abrir a própria clínica.

O diagnóstico inesperado

Apesar da cirurgia bem-sucedida, os sintomas continuaram. Anos depois, já de volta a Curitiba, novos exames revelaram a causa real: uma ataxia cerebelar, doença neurológica que afeta o equilíbrio e a coordenação motora.

“Quando recebi o diagnóstico, eu ainda levava uma vida normal. Trabalhava, dirigia, atendia pacientes. Mas aos poucos os sintomas foram progredindo”, explica.

A progressão da doença se tornou mais evidente em 2017, durante a gestação do segundo filho. Em um episódio que marcou profundamente sua vida, ela sofreu quedas repentinas enquanto caminhava na rua.

“A partir daquele dia, eu nunca mais consegui andar sozinha.”

Quando o médico se torna paciente

Com o avanço da doença, a oftalmologista precisou interromper a prática clínica. Para alguém que havia dedicado toda a vida à Medicina, o impacto foi devastador.


“Foi um baque enorme. Eu tinha estudado a vida inteira, feito especializações, dado aulas em congressos. De repente parecia que tudo aquilo estava sendo tirado de mim”.

Durante anos, ela se afastou completamente da vida profissional e social. “Eu me escondi por quase oito anos. Médico não sabe ser paciente. Eu tinha vergonha de mim mesma.” A ruptura veio após a separação conjugal, momento que a levou a iniciar um profundo processo de autoconhecimento e transformação pessoal.

“Eu comecei a entender que a Medicina não é só aquilo que fazemos com as mãos. A Medicina também está na forma como cuidamos das pessoas.”

Transformando dor em propósito

clique para ampliarclique para ampliarDra. Juliana no lançamento do seu livro 'Do Deserto ao Oásis através da Ora+Ação'. (Foto: Acervo pessoal)
Com o incentivo de amigos e pacientes, a médica decidiu compartilhar sua história. Primeiro nas redes sociais e, depois, por meio da escrita de um livro autobiográfico, intitulado “Do Deserto ao Oásis através da Ora+Ação”, no qual relata sua trajetória, os desafios enfrentados e as reflexões que surgiram ao longo do caminho.

O retorno dos leitores trouxe novas perspectivas. “Começaram a chegar muitas mensagens de pessoas dizendo que estavam passando por momentos difíceis e que minha história ajudava de alguma forma. Foi quando percebi que talvez esse também fosse um jeito de continuar cuidando das pessoas.”

Hoje, a médica fala abertamente sobre sua jornada e sobre a importância de olhar para as experiências da vida com novos significados. “Eu não sou quem eu sou apesar do que vivi. Eu sou quem eu sou por causa de tudo que vivi”.

clique para ampliarclique para ampliarA médica no Congresso da Escola Paulista de Medicina (Foto: Acervo pessoal)
Recentemente, esteve em um congresso da Escola Paulista de Medicina para discutir casos nas áreas de oncologia ocular e ultrassonografia ocular, especialidades nas quais construiu grande parte de sua trajetória profissional. Para ela, retomar esses espaços também representou um momento simbólico após anos de afastamento.

“Durante muito tempo eu me escondi. Foram quase oito anos assim. Mas hoje eu entendo que o meu conhecimento ainda pode ajudar muitas pessoas e contribuir com as novas gerações de médicos”.

Além disso, a médica passou a realizar palestras e atividades de mentoria, nas quais compartilha não apenas sua história, mas também reflexões sobre propósito, resiliência e diferentes formas de exercer a Medicina.

A oftalmologista também foi convidada recentemente para contribuir com um capítulo em um livro internacional que reunirá relatos de diferentes autores. Para ela, a fé também teve papel fundamental nesse processo de transformação.

clique para ampliarclique para ampliarRegistro do retorno às cirurgias (Foto: Acervo pessoal )
A partir desse processo de aceitação, a oftalmologista também voltou a se aproximar da Medicina de outras formas. Atualmente, integra a Comissão da Mulher Médica do CRM-PR, participa de congressos, auxilia em cirurgias, discute casos clínicos e compartilha sua experiência com médicos em formação.

“Eu entendi que tudo o que aconteceu comigo tinha um propósito maior. A fé em Deus foi fundamental nesse processo, porque foi o que me ajudou a atravessar os momentos mais difíceis e a encontrar um novo sentido para a minha vida”.


Hoje, ao compartilhar sua história com outros médicos e pacientes, a oftalmologista acredita que sua experiência pode ajudar outras pessoas a enfrentar desafios e encontrar novos caminhos, mesmo diante das adversidades.

Histórias que inspiram

A série do CRM-PR "Histórias que inspiram" se propõe a compartilhar histórias de profissionais da Medicina que vão além da prática médica, explorando as dimensões da vivência humana, sempre com uma boa dose de otimismo e amor pela vida. Sugestões de personagens podem ser encaminhadas por e-mail (comunicacao@crmpr.org.br), com formas de contato. Será observada a ordem de indicações.

 

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