Após enfrentar um diagnóstico neurológico e anos de afastamento da prática médica, a médica Juliana Rifas Nico Sobrinho ressignificou
sua trajetória e transformou a própria experiência em inspiração para outros médicos e pacientes
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Dra. Juliana é médica oftalmologista e escritora. Integra a Comissão da Mulher Médica
do CRM-PR, participa de congressos, auxilia em cirurgias e compartilha sua experiência com médicos em formação.
(Foto: Acervo pessoal)
A trajetória da Dra. Juliana Rifas Nico Sobrinho (CRM-PR
19.883 | RQE 13.386), médica oftalmologista de Curitiba, é marcada por dedicação à Medicina,
formação em diferentes centros do Brasil e do exterior e, mais recentemente, por uma profunda ressignificação
da própria vida após o diagnóstico de uma doença neurológica rara. Entre desafios pessoais
e profissionais, ela encontrou novas formas de exercer aquilo que sempre considerou essencial na prática médica:
o cuidado com o outro.Curitibana e filha de
bancários, a decisão de seguir a Medicina surgiu ainda na adolescência, em um momento difícil vivido
pela família. Quando tinha cerca de 12 anos, seu pai sofreu um infarto grave e ficou internado na UTI do Hospital Evangélico.
Durante uma das visitas ao hospital, uma cena marcante mudou sua forma de enxergar o mundo.“Chegou uma ambulância com uma família inteira queimada. Eu lembro
até hoje do cheiro da fumaça, do barulho da ambulância e dos gritos. Aquilo me marcou profundamente. Naquele
momento eu pensei: eu não quero estar do lado de lá, eu quero estar do lado de cá, ajudando”, recorda.Anos depois, ingressou no curso de Medicina da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Durante a graduação, teve interesse por diversas áreas,
mas acabou optando pela oftalmologia, especialidade que conciliava atuação clínica e cirúrgica.
A residência médica foi realizada no Hospital Universitário Cajuru.
Em busca de aperfeiçoamento, mudou-se para São
Paulo, onde realizou subespecializações em oncologia ocular, ultrassonografia ocular e oculoplástica,
com formação na Escola Paulista de Medicina e na Santa Casa de São Paulo. O período também
foi marcado por intensa atuação profissional, participação em congressos e atividades acadêmicas.Na oftalmologia oncológica, lidava diariamente com situações
extremamente delicadas. Muitos de seus pacientes eram crianças com tumores oculares, e comunicar diagnósticos
e decisões terapêuticas exigia não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade
humana.
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Dra. Juliana em palestra para crianças no Cento de Educação
Infantil Ponto a Ponto (Foto: Acervo pessoal)
“Eu precisava dar notícias muito difíceis.
Em alguns casos, precisava explicar para os pais que seria necessário retirar o olho do filho para salvar a vida da
criança. Não é algo que você simplesmente comunica. É um momento de muita dor para a família”,
relata.Segundo ela, essas experiências
ajudaram a moldar sua forma de exercer a Medicina. “Sempre acreditei que o cuidado não está só
no procedimento, mas na forma como você acolhe o paciente naquele momento. Muitas vezes, a entrega emocional também
faz parte do tratamento. Muitos pacientes já sabem sobre o seu diagnóstico; o que eles querem saber é
se você, como médico, estará com eles em todas as etapas, em todos os momentos, sejam eles fáceis
ou difíceis".Durante esse período,
também acompanhou o então marido em uma qualificação fora do país. Em 2010, o casal foi
para os Estados Unidos para uma experiência acadêmica na Universidade da Califórnia, em São Francisco
(UCSF). Na ocasião, Juliana participou como Observation Fellow no setor de oculoplástica da instituição.
Mesmo em meio a uma carreira promissora, alguns sinais
começaram a surgir. Durante o período em que vivia em São Paulo, a médica passou a apresentar
sintomas neurológicos como tonturas, fasciculações nas mãos e alterações na coordenação
motora.
Inicialmente, acreditou que fosse apenas estresse, consequência
de uma rotina intensa de trabalho. Após diversas consultas e exames, foi identificado um tumor cerebral benigno, um
meningioma, que foi removido cirurgicamente em 2009.
De volta ao Brasil, decidiram viver em São Luís (MA),
onde atuaram em um hospital oftalmológico em expansão. Foi nesse período que a Dra. Juliana teve seu
primeiro filho. Após dois anos no Nordeste, a família optou por retornar a Curitiba e abrir a própria
clínica.
O diagnóstico inesperado
Apesar da cirurgia bem-sucedida, os sintomas continuaram.
Anos depois, já de volta a Curitiba, novos exames revelaram a causa real: uma ataxia cerebelar, doença neurológica
que afeta o equilíbrio e a coordenação motora.“Quando recebi o diagnóstico, eu ainda levava uma vida normal. Trabalhava, dirigia, atendia
pacientes. Mas aos poucos os sintomas foram progredindo”, explica.
A progressão da doença se tornou mais
evidente em 2017, durante a gestação do segundo filho. Em um episódio que marcou profundamente sua vida,
ela sofreu quedas repentinas enquanto caminhava na rua.
“A partir daquele dia, eu nunca mais consegui andar sozinha.”
Quando o médico se torna paciente
Com
o avanço da doença, a oftalmologista precisou interromper a prática clínica. Para alguém
que havia dedicado toda a vida à Medicina, o impacto foi devastador.
“Foi um baque enorme. Eu tinha estudado a vida
inteira, feito especializações, dado aulas em congressos. De repente parecia que tudo aquilo estava sendo tirado
de mim”.
Durante anos, ela se afastou completamente da vida
profissional e social. “Eu me escondi por quase oito anos. Médico não sabe ser paciente. Eu tinha vergonha
de mim mesma.” A ruptura veio após a separação conjugal, momento que a levou a iniciar um profundo
processo de autoconhecimento e transformação pessoal.
“Eu comecei a entender que a Medicina não é só aquilo que fazemos com as
mãos. A Medicina também está na forma como cuidamos das pessoas.”
Transformando dor em propósito
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Dra. Juliana no lançamento do seu livro 'Do Deserto ao Oásis através da Ora+Ação'. (Foto:
Acervo pessoal)
Com o incentivo de amigos e pacientes, a médica decidiu
compartilhar sua história. Primeiro nas redes sociais e, depois, por meio da escrita de um livro autobiográfico,
intitulado “Do Deserto ao Oásis através da Ora+Ação”, no qual relata sua trajetória,
os desafios enfrentados e as reflexões que surgiram ao longo do caminho.O retorno dos leitores trouxe novas perspectivas. “Começaram a chegar muitas mensagens
de pessoas dizendo que estavam passando por momentos difíceis e que minha história ajudava de alguma forma.
Foi quando percebi que talvez esse também fosse um jeito de continuar cuidando das pessoas.”Hoje, a médica fala abertamente sobre sua jornada e sobre
a importância de olhar para as experiências da vida com novos significados. “Eu não sou quem eu sou apesar do que vivi. Eu sou quem eu sou por causa de tudo
que vivi”.
Recentemente, esteve em um congresso da Escola Paulista de
Medicina para discutir casos nas áreas de oncologia ocular e ultrassonografia ocular, especialidades nas quais construiu
grande parte de sua trajetória profissional. Para ela, retomar esses espaços também representou um momento
simbólico após anos de afastamento.
“Durante muito tempo eu me escondi. Foram quase
oito anos assim. Mas hoje eu entendo que o meu conhecimento ainda pode ajudar muitas pessoas e contribuir com as novas gerações
de médicos”.
Além disso, a médica passou a realizar
palestras e atividades de mentoria, nas quais compartilha não apenas sua história, mas também reflexões
sobre propósito, resiliência e diferentes formas de exercer a Medicina.
A oftalmologista também foi convidada recentemente
para contribuir com um capítulo em um livro internacional que reunirá relatos de diferentes autores. Para ela, a fé também teve papel fundamental nesse
processo de transformação.
A
partir desse processo de aceitação, a oftalmologista também voltou a se aproximar da Medicina de outras
formas. Atualmente, integra a Comissão da Mulher Médica do CRM-PR, participa de congressos, auxilia em cirurgias,
discute casos clínicos e compartilha sua experiência com médicos em formação.
“Eu entendi que tudo o que aconteceu comigo tinha
um propósito maior. A fé em Deus foi fundamental nesse processo, porque foi o que me ajudou a atravessar os
momentos mais difíceis e a encontrar um novo sentido para a minha vida”.Hoje, ao compartilhar sua história com outros médicos e pacientes, a
oftalmologista acredita que sua experiência pode ajudar outras pessoas a enfrentar desafios e encontrar novos caminhos,
mesmo diante das adversidades.
Histórias que inspiram
A série do CRM-PR "Histórias
que inspiram" se propõe a compartilhar histórias de profissionais da Medicina que vão além da
prática médica, explorando as dimensões da vivência humana, sempre com uma boa dose de otimismo
e amor pela vida. Sugestões de personagens podem ser encaminhadas por e-mail (comunicacao@crmpr.org.br), com formas de contato. Será observada a ordem de indicações.